João Gabriel critica colunistas de Record
O limite da crítica só pode ser a boa- fé. E se à partida podemos ser levados a pensar que os parâmetros da boa-fé não são mesuráveis, rapidamente podemos constatar o contrário.
Dizer mal é um direito constitucionalmente consagrado. Dizer mal sistematicamente é sintoma de algumas frustrações, de uma avaliação inócua e, na maior parte das vezes, cega e orientada. Vem isto a propósito de duas colunas de opinião publicadas, no passado sábado, no “Record”, nomeadamente as de João Querido Manha e Camilo Lourenço.
Tal como em outras profissões, seria benéfico que cada um dos que fazem da “opinião” o seu modo de vida – no desporto, como na política ou na cultura – pudesse haver um registo de interesses. Seria mais transparente, mais esclarecedor, enfim, mais sério.
Não deixa de ser surpreendente que ambos os cronistas assentem parte das críticas que produzem nesses textos no facto de Luís Filipe Vieira (na entrevista concedida à RTP) ter “desvalorizado” Quique Flores, ao “admitir que, antes do espanhol, o Benfica tentou contratar Eriksson e, depois dele, Carlos Queiroz” (Camilo Lourenço). “Flores foi a terceira escolha” (João Querido Manha).
Curiosamente, aquilo que o presidente do SL Benfica disse na entrevista foi exactamente o contrário, como, e bem, todos os jornais assinalaram no dia seguinte: “Não fomos só a Manchester. Havia três opções e o Rui disse: a minha escolha está feita, é este (Quique Flores) que eu quero e vamos lutar por ele”. Como é que de uma afirmação tão categórica como esta, podem, no mesmo dia, dois articulistas do “Record” chegar a interpretação tão diferente. Será que ambos viram outra entrevista?
Outra afirmação que merece reflexão: “(LFV) revelou não ter controlado o processo de contestação na UEFA e a sua entrega a um funcionário, Paulo Gonçalves, sem autoridade nem prestígio dentro do clube”. Em primeiro lugar, João Querido Manha deve ser esclarecido que o lugar de responsável jurídico dentro de um clube só pode ser desempenhado por uma pessoa de enorme valor e méritos reconhecidos.
Não sei qual é o barómetro que Querido Manha usa para medir o prestígio e a autoridade de Paulo Gonçalves no Benfica, mas claramente errou na avaliação feita. Paulo Gonçalves não só tem prestígio no Benfica como os seus méritos profissionais são reconhecidos junto das instâncias que regem o futebol europeu.
Quanto à UEFA, Luís Filipe Vieira mais não fez que reafirmar uma posição pessoal. Em caso de a UEFA dar razão ao Benfica, defendia que o clube deveria recusar integrar a “Champions League” na presente edição, mas tal não significa qualquer divergência em relação ao processo que continua a correr na UEFA.
O ilícito provado – em relação ao FC Porto – em duas instâncias desportivas portuguesas deve merecer penalização do órgão máximo do futebol europeu. É uma questão de princípio, como de princípio seria a posição defendida pelo Presidente do Benfica: punido o FC Porto, o Benfica deveria manter-se fora da “Champions”. Não vejo que seja necessária especial argúcia para chegar até aqui.
Finalmente, vejo que João Querido Manha insiste “nos disparates cometidos no futebol após a saída de José Veiga”, esquecendo sempre aqueles que também nesse tempo foram cometidos. Em todo o caso, ainda bem que foi Querido Manha a defender José Veiga, porque no caso de Camilo Lourenço o facto seria mais gravoso, ou não tivesse sido ele o autor do livro “Como tornar o Benfica Campeão”, uma verdadeira ode aos méritos de Veiga!
Poderá o director do “Record” dizer que não tem responsabilidade editorial sobre a opinião expressa no jornal que dirige. Não posso estar mais em desacordo, o director de um jornal deve garantir que aqueles que escrevem nas páginas do seu jornal preservam a boa-fé como critério das críticas que produzem. Fora destes limites entramos em terrenos perigosos que em nada beneficiam os padrões do jornal que diariamente dirige.
João Gabriel (Benfica SAD)
Nota do director de “Record”
O director de comunicação da SAD do Benfica tem abertas as colunas deste jornal para rebater todas as críticas que quiser, sem que com isso ponha em causa os nossos colunistas, que continuam a merecer a confiança da direcção e que, por sua vez, responderão ou não a João Gabriel conforme for o seu entendimento.
Mas quanto à minha “responsabilidade editorial” e menos ainda sobre o que eu “possa dizer” é que o director do Benfica já não tem voto na matéria. Não sou influenciável, não mudo ao sabor das pressões e este jornal será dirigido até ao fim do meu ciclo segundo os meus princípios e as minhas convicções.
Data: Quinta-feira, 24 Julho de 2008 - 06:32
|