Crónica do Caixote do Lixo...

Dandy

 


   Parte I:




   Domingo, 10 de Maio, apenas 60 minutos antes do começo do 4º jogo (agendado para as 16 horas), tive a confirmação de que poderia assistir ao encontro entre Glorioso e FCP: um grande amigo meu (vai daqui um abraço), portista a 200%, tem lugar cativo no caixote e não ia assistir ao desafio (tinha ido na véspera e voltou tão decepcionado, ao verificar "in loco" a diferença de valor entre as duas equipas -mascarada por um resultado equilibrado-, que decidiu ficar em casa e ceder-me, amavelmente, o convite).


   Chegado ao local, a agitação habitual, muito por culpa da treta do tetra, bastava ter dois olhos na cara (ou meio neurónio sóbrio) para perceber que Benfiquistas, se os havia, estavam calados e anónimos. Pergunto-me mesmo se haveria algum (ao ler os posts fico com a ideia de que estaria mais um, pelo menos).
   Recordo que a venda de bilhetes era exclusiva para sócios do Porto (algo que, na minha opinião, vai contra a cultura desportiva), daí o ambiente de consenso azul que imperava. Ao terem sido vendidos 1700 bilhetes (a capacidade oficial é de 2007 espectadores), a percentagem de adeptos portistas era, literalmente, superior a 99%.


   Vale a pena referir que sempre fui uma pessoa pacífica e respeitadora das diferenças, da Diferença, que, todos nós, em maior ou menor grau, possuímos, relativamente à Moda (valor estatístico que mais vezes se repete, num determinado universo).
   Aliás, nenhum de nós existiria se não houvesse diferenças, Diferença, se não existissem idissincrasias e variabilidade biológica. E esta premissa começa no mais primário e elementar dos níveis orgânicos (dois homens, ou duas mulheres, por exemplo, não são capazes de gerar vida...daí a necessidade de intervirem dois sexos diferentes, de existir diferenciação de género) e vai até onde a inteligência (leia-se tolerância) humana permitir, ou desejar.
   E um desses níveis, onde a naturalidade e normalidade da Diferença deveria ser alcançada, é, precisamente, o Desporto. Por todos os motivos: se, por absurdo, fossemos todos do Benfica (ou de qualquer outro clube)... contra quem jogaríamos? Será que existiriam competições? Será que seria possível organizar torneios e jogos? Que sentido faria um mundo assim, monocromático?
   E, novamente por absurdo, se fossemos todos do Glorioso (ou de qualquer outra colectividade)... que prazer daria ganhar um jogo? Com quem poderíamos brincar um pouco, no dia seguinte, no trabalho? Provocar aquele colega tripeiro? Como seria possível espicaçar aquele nosso primo que é das osgas até meter nojo? Ou a cunhada que é Belém até à medula? Tudo isso se perderia...
   Todo este palavreado (que me desculpem os amigos Benfiquistas pelo tempo que vos estou a roubar) para dizer que sou, fundamental e essencialmente, pela Diferença. Mas diferença com Educação e em Paz. Os nazis também eram pela diferença... mas não eram pela Paz. E não consta que fossem muito educados com os judeus...


   Convivo tão bem com estes conceitos que nunca me pareceu estranho que tendo nascido no Porto, onde vivi a maior parte da minha vida, e tendo, até, chegado a praticar basquetebol nas camadas jovens do FCP (juntamente com Marçal, Paulo Pinto, João Rocha, ...), nunca tivesse sentido outra cor, no núcleo duro do meu Coração e no miolo da minha Alma, que não fosse o encarnado do Sport Lisboa e Benfica. Eu Amava (e Amo) o Benfica... e outras pessoas Amavam (e Amam) outros clubes.
   Na minha opinião, essas pessoas têm um péssimo gosto... mas o azar é delas. De resto, só posso agradecer a esses indivíduos a sua existência. Afinal de contas, se não fosse por eles, de certeza que também não existiria Benfica: sem confrontante não há confronto (como tentei explicar antes).


   Retomando a crónica do dia, entrei no caixote, às 3 e meia, e constatei que o meu amigo portista tem um excelente lugar cativo: quinta fila, quase em frente à linha de meio campo. Fiquei todo contente. Não levava comigo nenhum elemento ou adereço que exteriorizasse a minha preferência clubística e, como tal, tudo estava sereno.
   Cheguei ao lugar e sentei-me quando faltavam, ainda, 25 minutos. Estavam os jogadores do Porto a aquecer. Achei que a casa estava bastante composta. À minha volta, na zona que me tocara em sorte, estavam 70 % dos lugares ocupados e havia de tudo, menos claques: pais de família, mães, filhos, avôs, avós, criancinhas lindas, outras nem por isso, gajas boas, outras nem por isso, ...
   Ou seja, tudo aquilo que podemos encontrar em qualquer pavilhão, deste nosso Portugal, seja do FCP, do SCP, do SLB, ...
   Como não tenho noção da capacidade dos nossos pavilhões, EDP e Açoreana (alguém sabe?), não posso fazer uma comparação significativa. Mas chama bastante a atenção o facto de, no caixote, só haver uma bancada lateral (do outro lado, em frente à bancada, existem apenas 3 filas de sofás, com acesso directo ao campo -tipo NBA-, para convidados). Mais tarde tive a comprovação de que estavam presentes 1700 pessoas.


   Há vários anos que acompanho o basquetebol do Benfica, no Porto, e nunca deixei, com Educação e Respeito, sem ofender ou provocar (teria de ser muito estúpido para pensar, sequer, em provocar mais de mil pessoas), de aplaudir e puxar pelos jogadores da minha equipa. Aliás, é para isso, na minha concepção, que um ser humano entra no recinto de um espectáculo desportivo: para aplaudir e vibrar com o desempenho dos atletas e motivar e apoiar a equipa da sua preferência (se houver essa preferência, no meu caso ela existe). Eu nunca entrei num pavilhão para plantar couves...
   Tanto no Américo Sá, como no Rosa Mota, como em Matosinhos... sempre gritei e apoiei os jogadores do Benfica. Do princípio ao fim! E nunca tive problemas com a minha integridade física. Ouvia as bocas do costume, escutava alguns insultos que, na minha opinião, não deveriam existir... mas nada mais. Pensava eu que, no caixote, iria ser igual...


   Vinte minutos para as 4 e os jogadores do Benfica entram em campo, pela 1ª vez (pelo menos, desde a minha chegada). Bom... faço o que sempre faço onde quer que esteja, em campo, uma equipa do Glorioso: aplaudir de pé, durante largos segundos, a entrada da equipa para o aquecimento! No caixote não iria ser diferente. Posso dizer-vos que, a partir desse momento, as coisas não voltaram a ser as mesmas.
   A primeira coisa que se alterou foram os olhares: da indiferença inicial, de mais um corpo, anónimo, ambulante entre a massa azul, estava identificado, e localizado, o vírus encarnado. Stewards, pais de família, mães, filhos, avôs, avós, criancinhas lindas, outras nem por isso, gajas boas, outras nem por isso, ... todas as pessoas pareciam, agora, dirigir os olhares para o mouro, assumido, que se atrevera a aparecer no feudo azul.
   A equipa inicia o seu aquecimento e volto a sentar-me, quieto e calado. As coisas voltavam a entrar numa aparente normalidade... mas era somente aparente, pois a podridão estava já em preparação.


   Findo o aquecimento, a equipa dá o grito, e os atletas são anunciados, um por um, pelo microfone do pavilhão. Os do Benfica primeiro, naturalmente, ao ser forasteiro. Nesta altura, já tinham entrado mais pessoas nas bancadas. No meio dos habituais assobios, intimidatórios e ensurdecedores, que acompanham a entrada dos nossos atletas em campo, recoloco-me de pé a aplaudir os jogadores do Benfica. Obviamente, sou a única pessoa a fazê-lo. Não havia qualquer possibilidade de não ser notado, ao fazê-lo, mas isso não significa que fosse minha intenção provocar, ofender ou insultar. Afinal de contas, limitei-me a fazer aquilo que os adeptos do Porto fariam, 3 minutos mais tarde: aplaudir e apoiar os seus atletas, que entravam em campo.
   Já dentro de campo, todo o plantel do Benfica perfila-se paralelamente à linha de fundo (quem não está familiarizado com esta imagem?). Alguns jogadores olham, inespecífica e indefinidamente, para a bancada, sem buscar nada de concreto ou particular. O Diogo Carreira, ainda assim, localizou-me (eu era o único, de pé, que os aplaudia e gritava Vamos!) e acenou-me (um grande bem haja para ele).
   Nesta altura, à minha volta, começava a escalada verbal: Cala-te!... Vai-te embora, Mouro!... Vê lá é se estás quietinho, ó cor*o!... Filho da grande pu*a!... Palhaço de merda!... Vamos te fo*er, ó boi! E muitos mais impropérios que não merece a pena mencionar mas que toda a gente pode imaginar porque, infelizmente, anormais há em todos os clubes.
   Em nenhum momento assobiei os jogadores do Porto, em nenhum momento respondi aos insultos, em nenhum momento usei linguagem obscena ou ofensiva, em nenhum momento provoquei as pessoas (a não ser que alguém -independentemente do clube- considere que aplaudir e apoiar a equipa forasteira, afastado de qualquer claque caseira organizada, qualquer que seja o estádio ou pavilhão, seja uma provocação para os adeptos caseiros). Alguma vez eu seria tão estúpido a ponto de pretender provocar 1700 pessoas e esperar sair ileso e vitorioso? 


   Se eu estivesse num dos pavilhões do Benfica, com a lotação quase cheia, com uma assistência 99% Benfiquista e, de repente, estivesse um tipo, de pé, a aplaudir o Porto, de modo educado, entusiasta mas sem insultos, vibrante mas sem provocações, afastado das claques do Benfica, no seu lugarzinho individual... que ameaça é que ele poderia constituir (não me estou a referir, obviamente, ao bando de animais que, em pleno estádio da Luz, se põe com cânticos ofensivos)? Nenhuma. Até poderia ser divertido ter ali um andrade para mandar uns piropos...
   Ou iríamos ser todos animais e, colectivamente, matávamos o homem? E se fosse vosso filho... ou vosso irmão...ou vosso pai?


   Primeiríssimos minutos de jogo, o encontro a correr-lhes mal, desde o início (o que nem admira, dada a fraquíssima equipa que possuem, notícia, mesmo, é termos de ir a 4 jogos), os insultos a choverem de todos os lados e eu, na minha cadeirinha, a aplaudir cada cesto do Glorioso e a gritar (sim, porque não?) o nome de cada jogador que marcava ou ressaltava (Bom, Évora, bom!... Grande Tavares!... Doliboa you´re the man!... Capitão Sérgio!)...
   A situação aproximava-se, rapidamente, do insustentável. Só não tinha havido, ainda, contacto físico. De resto, tudo o que possam imaginar: velhas (daquelas que depois chegam a casa e dão beijinhos, ternos, aos seus netinhos) a insultar-me com frases ordinárias diante de crianças, mulheres a espumar raiva e palavrões contra mim, homens de 170 centímetros a prometer-me porrada (eu meço 196 centímetros e peso 90 kgs), ódio de morte ao Benfica a jorrar por todos os poros...


   Aos 5 minutos, do primeiro período, vem um Steward ter comigo (quando já havia anormais, de pé, à minha volta):


   Pode mostrar-me o seu bilhete, por favor?... solicitou.


   Mostrei-lhe. Tudo normal, para grande azar da rapaziada. Não podiam ir por aí. (Levem este filho da pu*a daqui para fora, caral*o!...era a banda sonora do momento).


   O Steward vai-se embora. Volta um segundo Steward:


   Venha comigo, por favor.


   Para onde?... perguntei.


   Venha comigo, por favor... insistiu.


   Para onde?... resisti. A esta altura, tal o alvoroço criado, já toda a gente, no pavilhão, sabia que eu era o lampião infiltrado.


   Vamos levá-lo para um local onde a sua segurança possa ser assegurada. Acedi ao pedido do homem, que parecia razoável.


   No meio de insultos, e mais insultos, começo a deslocar-me pelo meio das cadeiras e, acompanhado de dois Stewards, subo as escadas em direcção aos corredores. Vamos trocando algumas palavras e, basicamente, eles achavam que eu era profundamente inconsciente e ingénuo. Ou, simplesmente, estúpido.
   Eu respondia que até poderia ser verdade mas que, na minha opinião, a minha alegada inconsciência (ou, simplesmente, estupidez) só poderia existir na razão proporcional e directa da falta de civismo e de educação de muitas das pessoas ali presentes.
   Diálogo absolutamente infrutífero e que durou, apenas, breves segundos.


   A dada altura, reparo que nos aproximamos da saída principal. Nessa altura, antevendo o pior, pergunto:


   Para onde vou ver o jogo?


   Lá para fora, amigo, para a rua... responde o Steward que estava, agora, sem o colega. O amigo acha que nós podemos zelar pela sua segurança? Nós não podemos responsabilizar-nos! Tirámo-lo dali para preservar a sua própria integridade mas agora tem de ir lá para fora porque já está marcado.


   Nesse instante, vivi o meu primeiro momento, realmente, crítico. Senti a minha vida toda a andar para trás, em meio segundo, e sem saber o que fazer. A injustiça, daquela situação (a expulsão de que ia ser vítima), abalou-me muito mais do que uma cambada de atrasados mentais, sem cultura, a direccionar insultos estéreis.
   De uma coisa tinha certeza: não queria ficar sem ver o jogo. Nesse momento parei de andar e decidi não dar nem mais um passo. Parei de andar, a poucos metros da saída... mas não sabia o que dizer. Não sabia sequer se poderia pedir um livro de reclamações... pois desconheço se os recintos desportivos estão obrigados a ter um. Não sabia mesmo o que dizer ou fazer. Mas sei que parei de andar. E sentenciei: Daqui não saio!


   (Continua)






Dandy

 



   (Continuação da Parte I)





   Vá...vamos lá... insistia o Steward.


   Quase sem pensar, movido pelo sentimento de revolta e de desigualdade que sentia (como era possível que o castigo fosse para o inocente e os culpados escapassem ilesos?), comecei a desbobinar palavras:


   Não saio daqui! Se necessário chamo a polícia... mas não vou para a rua! Já fui atleta do FCP, já trabalhei como médico no FCP (mostrei a cédula), não insultei ninguém, não desrespeitei ninguém... portanto exijo assistir ao jogo.


   Sem saber bem como, dá-se uma inflexão, inopinada, na situação: chega um outro responsável, o Steward fala com ele e começamos a retroceder pelo mesmo caminho.


   Amigo: vai ficar aqui mas não seremos responsáveis pela sua segurança. Mas estaremos a observá-lo. Você é maluco! Fique aqui nesta bancada...


   Referia-se a uma das bancadas atrás das tabelas. Na bancada em frente, atrás da outra tabela, estavam os Super Dragões. Posso dizer que, efectivamente, à medida que descia as escadas, em busca de um lugar, constatei, sem dificuldade, que a minha cor clubística fora já desvendada. Havia piropos e bocas... mas a zona era mais tranquila. Havia poucos insultos viscerais.
   Sentei-me num lugar, na 3ª fila. Se é verdade que não voltei a levantar-me, não é menos verdade que continuei a aplaudir e a puxar pelos jogadores. A certa altura, dada a diferença de potencial entre os dois conjuntos, nem foi preciso sofrer. Tratava-se agora, tão somente, de aguentar e gerir a vantagem. Coisa que a equipa fez na perfeição.
   Minhava foi um maestro na condução; o Pacheco (como diz o ednilson) fez o que quis, durante o jogo, com o franganote que lhe puseram à frente; o Doliboa, sem ter estado brilhante, não sabe jogar mal, e apareceu quando a margem baixou para 11 pontos; o Capitão Sérgio é um guerreiro com uma inteligência invulgar, em campo, tira quase sempre algo positivo, dos lances, e qualquer atleta aprende com ele; o Élvis tem de estar presente em qualquer equipa que queira dominar a modalidade, a nível interno, pois é o único tanque luso; o João Santos, mesmo com números discretos, sabe o que fazer, em cada momento, tem tarimba e talento...
   Mas foram todos úteis, todos. Nota-se que há espírito de grupo: Carreira, Eky, os suplentes não utilizados, o lesionado Ben... e o Senhor Henrique Vieira. Já toda a gente sabe, mas não fica mal dizê-lo mais uma vez: o Homem tem Classe.


   Rapidamente, veio o final do jogo, não sem que antes o público tentasse empurrar a equipa da casa, que reduzira para 11 pontos, em direcção à recuperação, entoando cânticos anti-Benfica e assobiando tudo o que fosse gesto nosso ou movimento dos árbitros. Debalde.
   No fim do jogo, a equipa celebrou, Minhava exultava, desci até à primeira fila e chamei o Sérgio que, muito amavelmente, aproximou-se de mim (quem o conhecer poderá confirmar a versão) e disse, com uma sobriedade impressionante:


   Obrigado pelo apoio!


   Senti-me com o coração quente, senti-me recompensado por tudo aquilo que tinha passado e fiquei com a firme convicção de que esta equipa tudo fará para nos dar, esta época, o título, de Campeão Nacional, que nos escapa desde 1995. Tinha valido a pena.


   Fim do espectáculo, pensava eu.
   A zona onde assistira à maior parte do jogo era, sem dúvida, mais serena, ainda que não tivessem faltado os insultos. O problema é que eu, agora, estava, como dissera o outro, marcado. E ainda tinha de sair do pavilhão.
   Na caminhada iniciada, pelo corredor, em direcção à saída, tive o grato prazer de encontrar um antigo treinador (no desporto escolar) meu, antigo atleta e campeão nacional pelos andrades. À medida que nos íamos aproximando, da saída, começavam a reaparecer muitos dos rostos que, no início do jogo, na bancada lateral, reclamavam a minha cabeça. A estes juntavam-se, inevitavelmente (dado que a saída é só uma, para todos), os Super Dragões que tinham estado na bancada oposta à minha.
   Devo dizer que é particularmente triste ver uma velha passar por nós e chamar-nos Filho da pu*a... mas limitei-me a ignorar. Que mais poderia fazer? Nessa altura estava acompanhado pelo meu antigo treinador. Toda as pessoas sabiam, naquele momento, quem eu era e de que cor era. Os olhares eram, novamente, de ódio. Os insultos recomeçavam. Tivemos (público em geral) de abandonar o pavilhão pois os Stewards queriam fechar as portas. Fecharam-nas, atrás de nós (saíramos, entretanto), e ficaram lá dentro.
   Polícias cá fora? Não vi nenhum. Senti, pressenti, realmente, que a minha integridade estava em perigo. Homens, mulheres, pais, mães, velhos, velhas,... ninguém parecia importar-se com os insultos que me eram direccionados. Estamos, portanto, já fora do pavilhão, portas, atrás de nós, fechadas, nem um polícia à vista, e abrigados, da chuva, debaixo de uma estrutura à saída. Dezenas de energúmenos e hostilidade por toda a parte.


   A dada altura, vem um sujeito falar comigo. Corpulento e com perto de 190 centímetros, coloca o rosto à distância de um palmo, do meu. Diz-me, olhando-me nos olhos:


   Você é um grande mal-educado, um grande otário e um grande parolo! No meu clube há muitos parolos mas você é um grande parolo e um grande otário! Mas olhe... venha mais vezes! (e sorri, em tom de ameaça).


   Permaneço absolutamente imóvel, olhando-o nos olhos, também, e pergunto-lhe:


   Isso é um convite?


   Mal acabo de proferir esta frase e sinto que levo, pela direita, uma pancada (nem foi um soco nem foi uma chapada) lateral, na cabeça, por parte de um minorca (nem o vi) que, segundo o meu ex-treinador, teve de saltar para acertar-me. Olho para a direita e lá estava o cobarde, todo inchado, com mais uns quantos rufias.
   Nisto, já o meu ex-treinador tenta, dentro do possível, serenar os ânimos, interpondo-se entre o grupo e eu.
   Acto seguido (toda o ataque dura, no máximo, 15 segundos) sinto 2 ou 3 pancadas, pelas costas (claro!), repartidas pela cabeça e pelas costas. Eu estava cercado.
   Nesse mesmo instante, o meu ex-treinador empurra-me dali para fora, à chuva, e encaminha-me para a estação de metro (quem conhece o local consegue visualizar a cena). Não fomos seguidos.


   Nem sangue, nem equimoses, nem danos materiais. Mas vergonhoso, a todos os níveis. Não fosse o meu ex-treinador (vai daqui o segundo abraço da noite), ou fosse eu mais pequeno, fisicamente, ou sei lá porquê... não sei o que poderia ter ocorrido. E assim são cometidos assassinatos, por vezes. Alguém duvida que estes imbecis andam armados com facas? Mas ninguém vê nada, ninguém sabe nada, ninguém diz nada...
   Polícias? Todos no estádio, na treta do tetra...
   E aquelas avós, seguramente, beijaram os seus netinhos, ao chegar a casa, com as mesmas boquinhas porcas com que, horas antes, me insultaram indecorosamente...


   Poderei ter sido inconsciente, não sei. Peço a vossa opinião, por favor, sobre o assunto, se assim desejarem expressá-la. Mas volto a repetir o que já dissera antes: a minha alegada ingenuidade (ou, simplesmente, estupidez), se existe, só sobrevive e floresce pela lamentável falta de educação cívica e de formação humana de algumas pessoas.


   É que eu não sei viver com medo.


   Hoje e Sempre...Viva o Benfica!


   P.S.: Lanço-vos umas quantas perguntas que gostaria de ver respondidas, por favor, se alguém souber/quiser. Obrigado.


   1- Qual é a capacidade dos nossos pavilhões (EDP e Açoreana)?


   2- Os recintos desportivos são obrigados a ter livro de reclamações?


   3- Se um Steward vos der uma ordem, com a qual não concordem... que mecanismos estão à disposição do adepto?


   4- Entre Stewards e polícias... quem manda em quem?


   5- Que teriam feito, no meu lugar, de diferente?


   6- Foi alguém ao pavilhão? Apercebeu-se de algo do que aqui foi relatado? Talvez possa acrescentar algo...








modalidades SLB



46Rossi

Acho que foi de uma grande ingenuidade manifestar-se abertamente como Benfiquista e não esperar esse tido de reacção daquela gente...


Não é por acaso que se diz que o contrário de desporto é porto... aquela gente tem muito pouco a noção do que é o desportivismo...


Mas pegando nas palavras do Sérgio, obrigado pelo apoio e já agora pela ingenuidade  ;D


:drunk:

lorenzzu

É preciso ter coragem para fazer o que tu fizes-te......mas pelo que li até tinhas mais ou menos as costas quentes.....(li aos poucos)...

Respondendo às tuas perguntas....

A policia claramente se sobrepõe ao Stewards em termos de autoridade, estes são meros trabalhadores como uma qualquer empregada de limpeza do pavilhão. Apenas estão ali para aconselhar e garantir uma rápida intervenção em caso de incidentes. Podias muito bem ter feito queixa deles. Mas para isso precisavas de ter pedido para a policia os identificar.
Os recintos não são obrigados a ter livro de reclamações...não se trata de um serviço prestado, mas sim um local (recinto)
No teu lugar, ou ia com amigos portistas para me defenderem, ou ia com muitos benfiquistas....

Pedro84

Não tenho dúvidas que foste estúpido, mas digo-o com todo o orgulho, tenho orgulho que sejas adepto do meu clube!!

Todo o meu respeito para ti!!  :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2: :bow2:

O_Glorioso

Eu não esperaria outra coisa, os porcos são mesmo assim, e quando se juntam em varas, ui...

Grande coragem e grande maluqueira...  :clap1:


Tentando responder às questões:

1 - Pavilhão Império Bonança: 2400; Pavilhão n.º 2 (ex-EDP): 1800.

2 - Na lei diz isto: "instalações desportivas de uso público, em particular nos ginásios". Mas deve haver meios de reclamação; por exemplo, para o Instituto do Desporto de Portugal. E ter alguma sorte, pois temos de contar com o escroque nojento, porco, do Laurentino.

3 - Reclamando ou chamando a polícia, talvez.

4 - A polícia tem mais poder, penso. Pelo menos, é lógico.

5 - Estaria quieto e calado, porque já sei o que a casa gasta.

6 - Parece que sim. A malta depois confirma.


Saudações benfiquistas.  :drunk:

ForçadoBloqueio

És grande Dandy! À medida que ia lendo o teu texto previa um final tão ou mais infeliz do que aquele que aconteceu.... eu nunca faria isso (se calhar pq não tenho 1,90mt e 90kg!) e a única vez que fui a um Porto-Benfica com um cartão de sócio de um amigo para a bancada de sócios mantive-me sempre calado e sem me manifestar com o que quer que fosse. Como é óbvio, mesmo com este comportamento fui alvo de bocas daqueles inergumes que por ali proliferavam uma vez que não festejei os golos do Porto (nem os roubos do Sr.Paulo Costa!) como eles queriam....tão pouco festejei o nosso golo marcado pelo Tiago e que nos colocou a ganhar 0-1 na altura!

Aquilo que sei é que esta gente não fala a mesma língua que eu e, como tal, no mundo animal mantenho o meu respeito pelos seres vivos que lá habitam....

Mais acrescento que é este ambiente de pressão, intimidação e agressão que funciona para todos os agentes desportivos (adeptos, dirigentes, jogadores, árbitros, etc)! E é isto que torna quase impossível vencer nestes campos....porque é que nós não temos direito de usar as mesmas armas? Ou melhor, porque é que as leis e regras da sociedade não se aplicam em todo o território nacional?

E é neste enclave que eu vivo....infelizmente! Merda de cidade, de cidadãos, de autoridades!

P.S.- O importante é ser amigo do Makako....esse sim, a verdadeira autoridade da cidade! Durante os festejos, à porta da minha casa cheguei a ouvir qualquer coisa do género: "e o crl, depuois beio o Makako, mandou um estalo ao gajo e ele calou-se luogo!" Fodzzzz, mas que merda de raça é esta?

SevenStars

Boa meu caro. Não viu polícia, é normal. Deviam estar todos na Luz para bater nas velhotas e nos miúdos que lá estariam. Isso é normal.
Não respeitam a Lei, também é normal. O responsável por a fazer cumprir, o sr. secretário do desporto devia estar a olhar para as análises anti-doping e para as contas dos poucos clubes que têm salários em dia.
E todos sabemos de onde vem a filosofia da má criação. É que a negação dos contrários é uma filosofia de vida pobre e triste, que só conduz ao isolamento e a um fim triste e amargurado.

Joga Bonito

Grande texto Dandy, para ti uma vénia.

E outra vai direitinha para o grande líder desta equipa (O António Tavares que me perdoe...): Sérgio Ramos! És o maior. Acredita!

JP.

Pois eu também lá estive...

Marquei presença no Caixote nos 2 jogos, sentei-me no mesmo sítio nos 2 jogos, e realmente vi o que aconteceu com o nosso companheiro, sem me aperceber muito bem do que se estava a passar.

Também eu já vejo os jogos do Benfica em Basket há uns anos, sempre que a nossa equipa se desloca ao norte (inclusivamente sempre que posso vou a Matosinhos ver os jogos do porto, como adepto de basket que sou). Também eu já ouvi muitas bocas, muitos insultos, sem nunca ter chegado a esse ponto.

Tanto no sábado como no domingo entrei no pavilhão sem qualquer adereço que me identificasse. Entrando lá no sábado, estranhei que os lugares atrás do banco do Benfica estivessem vazios (em Matosinhos eram lugares cativos de alguns animais) e para lá me dirigi, com 2 amigos portistas. Sentei-me mesmo atrás do banco, ao lado e à frente de muitos portistas (quem visse o jogo na SportTV facilmente me identificaria), debruçado sobre o separador. Cheguei quando os jogadores se preparavam para entrar em campo, e não hesitei em dar umas palmadas nas costas de alguns nossos jogadores e insentivá-los. Não obtive qualquer reacção da parte destes, mas a concentração para o jogo assim obrigava. Como é costume, ouvi logo as primeiras bocas, senti logo os primeiros olhares... Durante o jogo, sem ser particularmente exuberante, festejei os nossos cestos, as nossas jogadas, e incentivei muito aquele banco, sem obter qualquer reacção da parte dos seus elementos.

No domingo, cheguei ao pavilhão também na hora de começo do jogo, e realmente vi o nosso companheiro Dandy (que não conheço) de pé, parecendo aplaudir a nossa equipa, pois era o único a fazer isso. Fui-me sentar no mesmo sítio do dia anterior, com exactamente o mesmo comportamento do dia anterior. Entretanto amigos meus que estavam sentados atrás de mim avisaram-me do que se estava a passar, eu olhei para trás, e vi um adepto a ser acompanhado por 2 stewards. Desconfiei logo do que se teria passado. Quando voltei a ver, estava o nosso companheiro a descer a bancada atrás da tabela. Não vou esconder que isso me inibiu um pouco. Sempre vivi aqui e sei bem do que esta gente é capaz. Não deixei de dar os meus incentivos para o banco e de vibrar com algumas jogadas, mas senti o ambiente mais pesado. Felizmente para mim tudo acabou em bem. Infelizmente para um Benfiquista não foi bem assim...

JP.

No meio disto tudo não deixei de sair um bocado amargurado do pavilhão. Saí com muita pena de não ter ouvido uma palavra de incentivo como o Dandy ouviu do nosso Capitão. Saí com pena de não ter recebido um gesto como o do Diogo. Acima de tudo porque esta equipa mereceu-me toda a dedicação e esforço. No fim do jogo de domingo, quando a nossa equipa dava o grito junto ao banco e se retirava, eu estava a 2 metros deles, a aplaudi-los de pé e a incentivar, e ainda tive de levar com provocações do Eky, como se fosse um adversário. Fiquei um pouco triste, depois de 2 tardes a vibrar e sofrer e a admirar tanto aquele grupo. Nos últimos anos apenas falhei um jogo do Benfica no grande Porto (o jogo da fase regular desta época) e porque tive jogo meu (sou um jovem treinador). Sempre apoiei a equipa. E sempre passei por maiores ou menores embaraços.

Não sei se isto chega a alguém da secção, se chega a alguém importante dentro da modalidade, mas será que o Sport Lisboa e Benfica não poderá fazer algo por adeptos como eu, como o Dandy, e como muitos outros?

Isto cansa...

inc0gnit

A direcção está a cagar para nós, adeptos do SLB. Lamento JP.

Vocês os dois sao enormes! Grandes adeptos do nosso clube!  :slb2:

O que o dandy descreveu nao me surpreende infelizmente. É a realidade aí em cima. Ca nos nossos pavilhoes ja vi jogos ao lado de pessoal do fcp, e desde que nao se ponham a insultar o SLB, ninguem os incomoda.

tiago177

eu fui no sabado nao tive problemas nenhum... nem uma boca seker... fiquei com os familiares do sobrinho... joga nos porcos mas é bom rapaz... qt ao q te aconteceu claro q é lamentavel mas dql gente nao é de esperar outra coisa... inda tiveste sorte na maioria das vezes os stewards juntam-sed a festa...
pensava q exas cenas eram so em fanzeres mas enfim...